Julio Borba – Entroncamento (álbum)

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A MÚSICA DOS RIOS
A propósito de Julio Borba

“No final dos anos de 1980, quando secretário de cultura de MS, levamos a Assunção, no Paraguai, um grupo de artistas plásticos mato-grossenses e músicos sul-mato-grossenses que lá se apresentaram sob muito entusiasmo do público. Na ocasião reflexionei em meu texto uma analogia da sonoridade e seu processo de subir o rio acima, levando para outras plagas a sonoridade. Através do Prata, Paraná, Paraguai e mesmo o Cuiabá, no seu histórico de rio civilizador.
Geraldo Roca os viu como um litoral de dentro, o que faz contraponto intenso com o que disse. Porém, especulei alguma teoria: o Prata com seu tango cristalizado em Gardel (grandes mudanças no tango chegaram só com Piazzola, já na década de 1970). O peronismo tinha interesse que o tango fosse um retrato da sensibilidade argentina, o drama. Na subida do Paraná, a sonoridade passa por Corrientes, onde o chamamé impera com um ritmo cuja raiz repete um estilo de jóia, difícil de interferir. No rio Paraguai, em terras guarani, as polcas e guarânias, como as belas canções Índia e Recuerdos de Ypacaraí, que tornaram-se hinos cumprindo por décadas o retrato estético que interessou as ditaduras que dominaram o século 20 naquele pais, e que nenhum interesse tinham de estimular renovações, com raras exceções que não chegaram à tona. Em Cuiabá surge o rasqueado (na origem, mistura de violão paraguaio com viola de cocho).
Então, minha teoria é que a vanguarda, conclusão e recriação dessa sonoridade acontece na música mato-grossense, principalmente na de Mato Grosso do Sul. Acontece em nossa geografia, com os nossos grandes e criativos músicos que conseguiram reler, assimilar na melhor essência e acrescentar uma sofisticação própria. O Pantanal pode ter tido sua influência, com seu formato de anfiteatro, devolvendo ao rio os ecos desses sons todos que nos chegaram inicialmente por esse caminho. Músicos como Roca, Paulinho Simões, Almir Sater, os irmãos Espindola, Guilherme Rondon, Antonio Porto, além de outros grandes que os precederam e também os que ora continuam nessa busca, vêm renovando e criando um retrato de música genuína em nossa região. Digna de estudos e reconhecimento.
Vemos em Julio Borba uma nova estrela a compor essa constelação. De forma mais comprometida com o instrumental, começa a tratar nossa musicalidade de forma mais erudita, não é à toa que está se doutorando em música, suas composições e desempenho, principalmente ao lado de Santiago Beis, acrescentam novos aspectos nesta nossa musicalidade deste nosso Brasil profundo ou “de dentro” como preferem outros. Mas o resultado de tudo é histórico, sem dúvida. É uma nova música brasileira.”

– Humberto Espíndola (artista plástico e membro de ABCA)

01 – Nos dias de hoje
02 – Caminhos da orla
03 – Yucatã
04 – Capuchinha
05 – Melhoras
06 – Alma morena
07 – Nova
08 – Entroncamento
09 – Aguapé
10 – Jazz lascado

Julio Borba – Entroncamento

Todas as composições por Julio Borba, com exceção de “Nos dias de Hoje” (Julio Borba e Santiago Beis) e “Capuchinha” (Santiago Beis)

Interpretação:
Julio Borba – violão sete cordas (em todas as faixas)
Leonardo Lopes – contrabaixo (nas faixas 01, 02, 03, 04, 06, 07, 08 e 09)
Pedro Mila – bateria (nas faixas 01, 02, 03, 04, 06, 07, 08, 09 e 10)
Santiago Beis – piano, flauta e escaleta (nas faixas 01, 03, 04 e 05)
André Ribas – sanfona (na faixa 07)
Everton Silveira – sanfona (na faixa 08)
Ronald kubis – saxofone (na faixa 02)

Produção fonográfica: Acácio Duarte Guedes, Julio Borba, Matheus Mantovani e Santiago Beis
Captação de som: Acácio Duarte Guedes e Matheus Mantovani
Mixagem: Acácio Duarte Guedes e Santiago Beis
Masterização: André Prodóssimo
Arte da capa:
– Fotografia: Rafael Dabul
– Design gráfico: Matheus Mantovani

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